Coordenador de telescópio no Sertão da PB citado em relatório dos EUA nega que local seja base militar da China
Físico Élcio Abdlla reforçou que telescópio BINGO, localizado na cidade do Aguiar, no Sertão da Paraíba, funciona apenas com apoio tecnológico e científico chinês e que congresso americano errou ao afirmar.
Representação do radiotelescópio BINGO, que vai entrar em funcionamento em Aguiar, na PB, em 2026 — Foto: Divulgação/BINGO O Laboratório Conjunto China-Brasil para Radioastronomia e Tecnologia, instalado na Serra do Urubu, no município de Aguiar, no Sertão da Paraíba, foi mencionado em um relatório de um comitê do Congresso dos Estados Unidos que analisa possíveis instrumentos de espionagem da China na América Latina. Ao g1, o coordenador do projeto, o físico Élcio Abdalla, negou que o local seja uma base militar e reforçou o caráter científico do local.
O laboratório instalado no Sertão da Paraíba integra o projeto internacional BINGO (Baryon Acoustic Oscillations in Neutral Gas Observations), voltado à pesquisa em radioastronomia. A iniciativa busca detectar oscilações acústicas bariônicas (BAO) por meio da observação de sinais em radiofrequência para averiguar a matéria e a energia escura do universo. O projeto reúne instituições do Brasil e da China, como o CESTNCRI, a UFCG, a UFPB e o Governo da Paraíba.
"Não tem nada a ver com aplicação militar e os chineses estão nisso numa aplicação puramente científica. Os meus colegas chineses não fazem nenhuma afirmação do ponto de vista militar", disse Élcio.
Sobre a participação chinesa no projeto, Élcio Abdalla disse que apenas três pesquisadores de universidades do país asiático fazem parte da cúpula de comando e que o governo chinês entra apenas como apoio tecnológico e dos pesquisadores e que "se houver alguma influência, é uma influência brasileira".
“Os chineses fazem parte do projeto porque são cientistas. São três pesquisadores: um deles é um que atua em duas universidades chinesas. Há também um outro que trabalha basicamente na região ao norte de Xangai. Ele coordena dois grupos em universidades diferentes e é meu amigo pessoal e parceiro de pesquisas há muitos anos, cerca de três décadas. Há 30 anos fazemos ciência juntos e orientamos estudantes em conjunto. Os outros dois participaram como estudantes: um hoje é professor no Observatório de Xangai, ou seja, é astrônomo, e o terceiro é um físico que também foi aluno do professor”, explicou.
Outro ponto em que a China faz parte no projeto é o dos equipamentos que compõem a estrutura. Élcio Abdalla contou que o telescópio foi projetado com foco na montagem em território brasileiro. Várias peças vieram do país da Ásia.
Entre as partes enviadas da China estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, que são componentes centrais do radiotelescópio. As estruturas viajaram em contêineres e foram testadas e certificadas antes do embarque.
Tecnologia do radiotelescópio pode servir para segurança e mapeamento
O coordenador disse também que uma das tecnologias do radiotelescópio pode ser usada para outros fins, inclusive de mapeamento de florestas brasileiras e segurança.
Essa tecnologia em questão é chamada de Phased array, que é um conjunto de antenas para, no caso, serem apontadas para o céu e conseguir dados sobre a energia escura e a matéria escura. Mas essas antenas podem ser usadas no mapeamento e outras finalidades.
"Tecnicamente isso pode ser usado para outras coisas e, de fato, nós queremos usar como radares, por exemplo, não para vender para ninguém. Os chineses sabem fazer isso, eles sabem fazer essas coisas. Eles não precisam de nós. Para que nós queremos radares? Bom, para cuidar dos céus da Amazônia. Isso é um projeto brasileiro para auxiliar a fazer a guarda de locais brasileiros. Nós podemos guardar toda a Amazônia e toda a atividade ilegal, uma centena desses pequenos radares, se nós conseguirmos reproduzi-los de modo apropriado", disse.
Essa tecnologia, segundo Élcio Abdalla, também pode ser colocada em aviões para auxiliar nesse mapeamento ou até mesmo em embarcações. Mas ele reforça que nada dessas possíveis aplicações são de espionagem ou uso militar.
"No nosso caso são pequenos objetos que podem ir em pequenas embarcações para o interior da Amazônia. Essa é aplicação mais simples que podemos ter. Colocados em aviões, podemos fazer uma análise muito detalhada das florestas brasileiras, então isso é uma proteção das nossas florestas", explicou.
Ao g1, Élcio Abdalla também contou sobre os novos prazos para que o telescópio comece a funcionar. Ele explicou que inicialmente a previsão era começar em 2021, mas isso não foi possível por conta da pandemia. Depois, o prazo foi para 2024 e, posteriormente, com previsão de começar a operação ainda em 2026. O funcionamento pleno será em 2027, conforme o coordenador.
Relatório do congresso americano
O relatório, intitulado “Pulling Latin America Into China's Orbit” (“Atraindo a América Latina para a Órbita da China”, em tradução livre), cita instalações no Brasil, Argentina, Bolívia e Chile que são vistas pelo comitê como suspeitas de terem uso duplo para a inteligência militar.
O documento foi elaborado pelo Comitê Especial sobre o Partido Comunista Chinês, do Congresso dos Estados Unidos, presidido pelo deputado John R. Moolenaar, representante do estado de Michigan e membro do Partido Republicano.
A Estação Terrestre de Tucano, na Bahia, foi apontada pelo relatório como uma base militar chinesa não-oficial para lançamentos especiais. Intitulada como 'Tucano Ground Station', a base é feita pela Ayla ao lado da empresa aeroespacial chinesa Beijing Tianlian Space Technology Co. Ltd. Seu desenvolvimento foi para analisar dados de satélites em observação da Terra para monitoramento dentro do Brasil.
O corpo principal do radiotelescópio Bingo foi enviado da China para o Brasil no dia 10 de junho de 2025. A estrutura saiu do Porto de Tianjin, na China, e desembarcou no Porto de Suape, em Pernambuco, após quase dois meses de transporte. Entre as partes enviadas estão os espelhos primário e secundário e as torres das cornetas, que são componentes centrais do radiotelescópio. As estruturas viajarão em contêineres e foram testadas e certificadas antes do embarque.
O engenheiro sênior Wu Yang, do 54º Instituto de Pesquisa da China Electronics Technology Group Corporation (CETC), explicou que o telescópio foi projetado com foco na montagem em território brasileiro;
“O telescópio adota uma estrutura dual com deslocamento, sendo que cada seção possui uma forma única. A instalação no Brasil será feita pelo lado brasileiro, o que exige um processo de montagem simplificado”, afirmou Wu Yang.
O Governo da Paraíba estima um investimento direito de R$ 20 milhões no projeto.




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