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Arapiraca,26/04/2026

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Pressão doméstica faz líderes europeus recalcularem rota e confrontarem Trump

Inflação nos países da Europa e pressão da população contra a guerra no Irã forçaram presidentes e primeiros-ministros reavaliarem posições de alinhamento com os EUA

O GLOBO
Pressão doméstica faz líderes europeus recalcularem rota e confrontarem Trump Italianos marcham contra a guerra no Oriente Médio: ex-aliada, Meloni se voltou contra Trump — Foto: Riccardo De Luca/Anadolu via AFP

A inflação nos países da Europa e a pressão da população contra a guerra fizeram líderes europeus recalcularem a rota e confrontarem o presidente americano, Donald Trump. Ao gerar problemas de política interna, a guerra contra o Irã passou a ameaçar sua sobrevivência política.

— Muitos governos, mesmo aqueles que antes eram os mais próximos de Trump, entenderam claramente que o apoio político e a proximidade com os EUA representam uma espécie de suicídio eleitoral — afirmou ao GLOBO o pesquisador Alberto Rizzi, do Conselho Europeu de Relações Exteriores. — Apoiar esta guerra é perigoso, tanto do ponto de vista econômico quanto intelectual, para todos os governos europeus.

Ajuda à população

O caso mais emblemático é o governo do espanhol Pedro Sánchez, que desde o início se opôs firmemente aos ataques, posição que já vinha adotando muito mais claramente do que seus colegas europeus desde Gaza. Até então, outros líderes, como o francês Emmanuel Macron, a italiana Giorgia Meloni, o alemão Friedrich Merz e o britânico Keir Starmer escolhiam evitar o confronto com Trump.

Mas, agora que a conta foi apresentada e o custo político parece alto, todos fazem questão de mostrar publicamente que não têm nada a ver com o conflito que destrói vidas em lugares distantes, mas também afeta o cotidiano do continente europeu.

— Estou farto com o fato de que famílias por todo o país veem suas contas de energia subirem e descerem por causa das ações de [Vladimir] Putin ou Trump pelo mundo — disse Starmer no início do mês.

Na Irlanda, ruas e estradas foram bloqueadas por manifestantes em carros, caminhões e tratores contra o preço dos combustíveis. Passageiros em direção ao aeroporto tiveram que pegar suas malas e fazer o trajeto a pé, enquanto longos comboios andavam devagar para atrapalhar o trânsito. Ao fim, o governo cedeu e anunciou que um pacote de ajuda estava sendo finalizado.

Na França, o governo anunciou ajuda para os setores mais afetados: pescadores, agricultores e trabalhadores do setor de transportes.

— Quando você quer ser sério, não pode sair por aí dizendo o oposto do que acabou de dizer no dia anterior — disse Macron em viagem à Coreia do Sul, em crítica aberta a Trump. — Todos precisamos de estabilidade, um retorno à paz. Isto não é um show!

Três milhões de franceses também vão ser beneficiados com uma nova ajuda para quem dirige muito, anunciou nesta semana o primeiro-ministro Sébastien Lecornu.

— A guerra no Oriente Médio nos afetou diretamente, aumentou muito o custo do nosso trabalho e também o receio dos clientes de virem à França e não conseguirem o voo de volta. Eles têm medo de chegar na Europa e de repente ter o espaço aéreo fechado e não conseguir retornar ao Brasil — explica o brasileiro Jocimar Pimentel Pereira, que trabalha há nove anos como motorista privado no país.

O fechamento do Estreito de Ormuz já afeta diretamente os hábitos de consumo dos europeus. A guerra fez disparar os preços de passagens aéreas, que aumentaram mais de US$ 100 para voos de longa distância, segundo o Transport & Environment, já que 30% do combustível usado pelos aviões do bloco passam por lá.

Nesta semana, a Lufthansa anunciou o cancelamento de 20 mil voos previstos para o verão. As vendas de carros elétricos na Europa continental dispararam 51% em março, de acordo com análise do New AutoMotive and E-Mobility Europe em 15 países.

— Na União Europeia, importamos quase 90% de todo o gás consumido e 95% de todo o petróleo. A produção interna é muito baixa. Isso significa que recebemos as mercadorias ao preço que está sendo cobrado, seja qual for o preço — explica o professor Jan Rosenow, da Universidade de Oxford. — Há muito pouco que os governos possam fazer unilateralmente para escapar.

Embora grande parte do petróleo e gás importados pela Europa não venha direto por Ormuz, o preço no mercado internacional disparou. A Itália é um caso emblemático. Além de ser um dos principais importadores de energia do Catar, o país tem no comando uma das até então mais firmes aliadas do presidente americano no continente. Abalada pela derrota no referendo sobre a reforma judicial, a premier Giorgia Meloni mudou os rumos do seu apoio a Trump.

— Alguns são bastante dependentes do Catar, como Itália, Bélgica e Polônia — explica Ana Maria Jaller-Makarewicz, analista do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira. — No ano passado, metade do gás que chegou do Catar foi para a Itália.

Mudança após Papa

Meloni aproveitou os ataques de Trump ao Papa Leão XIV e os abraçou como uma oportunidade de limpar sua imagem, virar a página na aliança ideológica e se posicionar, chamando-os de "inaceitáveis". A oposição não ficou só no plano ideológico. A primeira-ministra negou aos EUA a utilização de uma base na Sicília e foi além: suspendeu um acordo militar com Israel.

— O governo entendeu que a proximidade com Trump tem prejudicado seu apoio e consenso político, e a Itália terá novas eleições até o ano que vem — explica Rizzi, que afirma que a situação com o Papa foi “muito conveniente”. — Ficou evidente que expressar apoio ou proximidade com Trump é muito perigoso, mesmo entre seus eleitores.

Pesquisas indicam que a população europeia não quer que seus países entrem na guerra. Na Itália, uma sondagem do Sky TG24 mostrou que apenas 8% dos italianos gostariam que seu governo apoiasse a ofensiva, enquanto 48% defendem a neutralidade e 29% preferem até que a Itália a condene. No Reino Unido, uma sondagem do YouGov mostrou que só 32% dos britânicos apoiam que seu governo permita aos EUA usar bases britânicas para lançar ataques. Na Alemanha, pesquisa da TV pública ARD revelou que a confiança nos EUA e na Rússia está baixa: apenas 15% consideram os EUA um parceiro confiável. A mesma pesquisa revelou que 58% consideram os ataques americano-israelenses injustificáveis.

— Esta guerra não é nossa, nós não a começamos — disse Merz, na semana passada.

Em uma pequena sala de cinema em Paris nesta semana, ativistas antiguerra se reuniram para um festival "anti-imperialista". Ali, a opinião unânime era de que a única posição possível para os líderes é contrariar Trump.

— No primeiro período da guerra, as pessoas estavam um pouco nervosas sobre o que pensar. Aos poucos, quando a ocupação e o genocídio foram crescendo, fomos às ruas e isso fez uma pressão grande sobre os governos — afirma a musicista turco-alemã Sena Erkoc. — Eles conseguiram ver que seus lucros econômicos, sociais, políticos e culturais estavam piorando. Por isso eles não estão apoiando Trump.




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