Paulo Marcello / Política da Hora
Pesquisa confirma que que 43% dos brasileiros não confiam nas urnas eletrônicas
Dos que acreditam na eficiência das urnas, 78% se declararam apoiadores de Lula
Foto: ReproduçãoA recente pesquisa Quaest trouxe à tona um dado que, embora não seja exatamente uma surpresa no atual cenário polarizado, é profundamente alarmante: 43% dos brasileiros afirmam não confiar nas urnas eletrônicas. Em um sistema que foi, por décadas, motivo de orgulho nacional e referência internacional de celeridade, esse índice de ceticismo sinaliza uma ferida aberta na legitimidade das instituições brasileiras.
Mais do que um debate técnico sobre segurança cibernética, a desconfiança nas urnas tornou-se um marcador de identidade política. Os números detalhados pela pesquisa deixam claro que a percepção de segurança do processo eleitoral está diretamente atrelada à preferência partidária.
Entre os que confiam nas urnas eletrônicas, 78% são apoiadores do presidente Lula. Já entre os que desconfiam da eficiência das urnas, a resistência é majoritária entre os eleitores de Jair Bolsonaro, onde apenas 18% declaram crer na eficiência do sistema.
Essa disparidade sugere que a urna deixou de ser vista como uma ferramenta neutra de contagem para ser percebida como um "personagem" do jogo político. Quando a confiança em um mecanismo técnico varia tão drasticamente conforme o aspecto político, o problema deixa de ser de engenharia e passa a ser de comunicação e narrativa.
A democracia brasileira enfrenta um paradoxo perigoso. A mesma urna que elege deputados, senadores e governadores de diferentes vertentes é contestada apenas quando o resultado da cúpula do Executivo não agrada a determinado grupo. Esse ceticismo seletivo mina a base do pacto social, ou seja, a aceitação (ou não) da derrota.
O eleitor que não confia no sistema tende a se afastar das urnas ou a radicalizar seu discurso, enquanto o vácuo deixado pela falta de confiança institucional é rapidamente preenchido por teorias conspiratórias em redes sociais.
A democracia não sobrevive apenas com códigos e softwares; ela depende, fundamentalmente, da fé pública de que o desejo da maioria será respeitado.
Enquanto quase metade da população olhar para a tela de votação com suspeita, o Brasil continuará caminhando sobre um gelo fino.



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