Severino Angelino / Saúde Mental
Likes, Ansiedade e o Eu Fragmentado: Quando a Rede Social Encontra o Inconsciente
Vivemos em uma época em que nossas vidas parecem acontecer tanto online quanto offline
Foto: Reprodução/InternetVivemos em uma época em que nossas vidas parecem acontecer tanto online quanto offline. Cada foto postada, cada story compartilhado e cada curtida recebida se tornam pequenos termômetros do quanto somos vistos, aceitos e reconhecidos. Mas, por trás desse fluxo constante de informações, existe algo mais profundo: a ansiedade silenciosa e a sensação de que nosso eu está, de certa forma, fragmentado.
Do ponto de vista comportamental, não é difícil entender por que isso acontece. Cada like ou comentário funciona como uma recompensa imediata, reforçando o comportamento de postar, compartilhar e buscar aprovação. Mas como qualquer reforço contínuo, esse ciclo pode se tornar um gatilho para a ansiedade: a ausência de retorno, mesmo que momentânea, gera frustração e insegurança, criando um loop quase automático de busca por validação.
Sob a lente da psicanálise, essa necessidade incessante de aprovação revela algo ainda mais profundo. Existe uma tensão constante entre o “eu real” — aquilo que somos de fato — e o “eu ideal”, a imagem de nós mesmos que desejamos projetar. Quando essas duas versões do eu não se encontram, surgem sentimentos de inadequação e fragmentação interna. Cada curtida ou comentário funciona como um espelho simbólico: buscamos, muitas vezes sem perceber, a aceitação que sentimos faltar dentro de nós mesmos.
O impacto dessa dinâmica na vida cotidiana é claro. A superexposição e a dependência da validação externa podem afetar a autoestima, aumentar a ansiedade e até predispor à depressão. Não se trata de condenar as redes sociais, mas de perceber como nos relacionamos com elas. Quando nossa identidade e valor pessoal ficam presos à vida digital, perdemos a medida do que é realmente nosso.
Reconectar-se consigo mesmo exige atenção e cuidado. Observar como nos sentimos diante das redes, estabelecer limites de tempo, cultivar atividades offline que nos tragam prazer e buscar formas de validação interna são passos essenciais. Refletir sobre os impulsos inconscientes que nos levam a compartilhar constantemente nos ajuda a integrar melhor o “eu real” e o “eu ideal”, promovendo mais equilíbrio e autenticidade.
No fim, redes sociais são apenas ferramentas; elas não definem quem somos. O verdadeiro desafio é manter o equilíbrio entre o mundo digital e nosso universo interno, reconhecendo que o bem-estar vem da aceitação de nós mesmos, antes de qualquer aprovação externa. É nesse ponto que a ansiedade diminui e o self fragmentado começa a se recompor.



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