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Arapiraca,04/05/2026

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Severino Angelino / Saúde Mental

O vício é o grito. O trauma é o silêncio que ninguém escutou

Por Severino Angelino
O vício é o grito. O trauma é o silêncio que ninguém escutou Foto: ilustração


O que chamamos de vício, muitas vezes, não pode ser compreendido apenas como um excesso de comportamento ou uma falta de controle. Na perspectiva psicanalítica, ele aponta para algo mais profundo: uma tentativa de lidar com uma dor que não encontrou palavras.


Por trás de muitas compulsões, dependências e repetições, existe uma história psíquica marcada por experiências que não foram acolhidas, simbolizadas ou elaboradas. O sujeito, diante de algo que o atravessa de forma intensa, encontra no vício uma espécie de saída possível, ainda que destrutiva.


O vício, nesse sentido, não nasce do vazio. Ele nasce do excesso de dor não elaborada. Ele se instala onde o sofrimento não encontrou escuta, onde não houve espaço psíquico para a palavra, e onde a angústia precisou ser descarregada no corpo, no comportamento ou em algum objeto externo.


A frase “o vício é o grito. O trauma é o silêncio que ninguém escutou” nos ajuda a pensar exatamente isso: o sintoma não é o início da história, mas a consequência de algo que ficou sem resposta.


O vício, então, fala. Ele comunica aquilo que não foi dito. Ele denuncia aquilo que não foi elaborado. Ele aparece como uma tentativa de sobrevivência psíquica diante de um sofrimento que se tornou insuportável.


Enquanto isso, a sociedade muitas vezes se concentra apenas no comportamento visível, naquilo que aparece como desvio, excesso ou descontrole. No entanto, sob a ótica psicanalítica, essa é apenas a superfície.


Tratar o vício sem escutar o trauma é como tentar apagar o fogo sem cortar o combustível. O sintoma pode até diminuir por um tempo, mas a causa permanece ativa, exigindo novas formas de repetição.


É por isso que, na clínica, o convite não é apenas à interrupção do comportamento, mas à construção de sentido. Dar palavra ao que foi vivido, muitas vezes, é o primeiro passo para que o sujeito não precise mais transformar dor em compulsão.


Aquilo que não é escutado como dor tende a retornar como repetição. E aquilo que não encontra elaboração psíquica insiste em se manifestar em sofrimento.


Por isso, mais do que olhar para o vício como um problema isolado, é necessário escutá-lo como um pedido. Um pedido de compreensão, de simbolização e de elaboração de uma história que ainda não pôde ser contada.



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