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Arapiraca,28/01/2026

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Severino Angelino / Saúde Mental

Por que o amor às vezes dói?

Você projeta no outro uma imagem idealizada: o “príncipe encantado” ou a “musa inspiradora”.

Reprodução Internet
Por que o amor às vezes dói? Por que o amor às vezes dói?

Jacques Lacan, com sua profunda e enigmática visão, disse: “A Mulher não existe.” O que ele realmente quis dizer com isso? Ele estava dizendo que não há um único ideal ou essência que defina “o que é uma mulher”.

Há mulheres, sim, mas não existe um molde perfeito que as encaixe. O que acontece, muitas vezes, é que, nas relações amorosas, você e seu parceiro se perdem tentando encaixar-se em um ideal, tentando viver uma fantasia que, por mais bonita que seja, é impossível de alcançar.

Você projeta no outro uma imagem idealizada: o “príncipe encantado” ou a “musa inspiradora”. Espera que ele preencha todos os vazios que carrega dentro de si, que leia seus pensamentos e que, de alguma maneira, o complete. Mas essa é uma armadilha inevitável. Nenhuma pessoa, por mais maravilhosa que seja, pode carregar sobre si a responsabilidade de sustentar um ideal tão inalcançável. E é aí que a dor começa, no momento em que a realidade se choca com as expectativas e a frustração toma conta.

A psicanálise oferece uma chave preciosa para entender dois movimentos que regem nossas relações e nos ajudam a lidar com essa dor. O primeiro é a Repetição Compulsiva. Quantas vezes você já se viu atraída por uma pessoa que, apesar de te fascinar, acaba te fazendo sofrer de maneiras familiares? Isso acontece porque, inconscientemente, você está tentando resolver uma ferida antiga — uma dor não curada, geralmente relacionada à sua relação com os pais. O psiquismo busca o familiar, mesmo que seja doloroso, na esperança de que, talvez, dessa vez a história tenha um final diferente. O segundo movimento é a diferença entre Amor e Desejo. O amor busca a união, a fusão. Ele quer estar junto, construir um “nós”. Mas o desejo, esse desejo profundo e vital, precisa de espaço, de falta, de uma distância que o mantenha vivo. Quando você e o outro se tornam demasiado um, o desejo enfraquece, murcha. A verdadeira chave, então, está em sustentar a diferença, em perceber que o outro é um mistério, alguém a ser desvendado, e não uma extensão de você mesma. O desejo nasce na separação, não na fusão.

O grande desafio do amor é que ele muitas vezes nos faz perder de vista o que é real, nos leva a idealizar o outro a tal ponto que nos esquecemos de enxergar a pessoa de carne e osso à nossa frente, com suas virtudes e suas falhas, com sua humanidade. O trabalho de autoconhecimento, então, é uma jornada para dissolver esses ideais, é um caminho para se libertar das fantasias e enxergar o outro pela sua essência. E, ao fazer isso, você consegue finalmente se relacionar com a pessoa real, sem esperar dela algo que ela nunca poderá te dar. Esse é o caminho para trocar a paixão cega e dolorosa por um amor mais consciente, mais profundo, mais duradouro.

Este é o amor que transcende as expectativas, que não se prende a idealizações, mas que vive na verdade do que somos, com nossas imperfeições, nossos medos, nossos erros e nossa beleza única. O amor que cresce na aceitação, na compreensão, na confiança. Esse amor é mais forte, mais real, mais transformador. Porque quando você deixa de buscar a perfeição e começa a aceitar a imperfeição, é aí que o amor se torna verdadeiramente belo.



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