Severino Angelino / Saúde Mental
Adolescência: A Revoada Edípica e o Confronto com os Pais
O que ele desafia não é o seu amor, mas a sua autoridade.
A fase da adolescência - Por: Severino Angelino"Vocês não mandam mais em mim!" "Isso é injusto!" "Ninguém da minha idade passa por isso!"
Se essas frases ecoam na sua casa, respire fundo. Seu filho não se tornou uma pessoa difícil da noite para o dia. Ele está passando por uma fase crucial de desenvolvimento psíquico: a reativação do Complexo de Édipo.
Na infância, esse complexo foi a estrutura que permitiu à criança se identificar com os pais, internalizar regras e estabelecer uma base de segurança emocional. Era uma fase de dependência, de aprendizado de limites e de construção do senso de identidade. Agora, na adolescência, esse mesmo complexo é reativado com um propósito oposto: ser superado. O adolescente precisa, simbolicamente, "derrubar" os pais idealizados da infância para se tornar um sujeito autônomo, dono do seu próprio desejo e capaz de estabelecer sua própria identidade.
A rebeldia, portanto, é um sinal de saúde. É a luta pela independência, uma tentativa de encontrar seu espaço no mundo. O que ele desafia não é o seu amor, mas a sua autoridade. E aqui reside um paradoxo fundamental: mesmo lutando contra os limites impostos pelos pais, o adolescente os necessita desesperadamente. A "lei" — as regras da casa — funciona como um contorno que o protege do excesso interno, da confusão, da angústia e do caos emocional. Sem ela, a liberdade se transforma em prisão, e a autonomia, em isolamento.
Seu papel, então, precisa evoluir. De um controlador onipresente, você é convidado a se tornar uma testemunha atenta e um conselheiro sábio. Uma postura mais humilde, às vezes dolorosa, mas essencial para esse momento de transição. Significa estar presente, oferecer um porto seguro, sem tentar controlar cada passo, e ao mesmo tempo, aprender a recuar quando necessário. Permitir que ele enfrente as consequências de suas escolhas — dentro de limites saudáveis — é um ato de amor profundo. É, na verdade, o maior presente que você pode oferecer para ajudá-lo a voar com seus próprios pés, construindo uma autonomia sólida e consciente.
Essa fase exige paciência, compreensão e uma escuta atenta às necessidades internas do adolescente. É um momento de transformação, onde a autoridade parental se reconfigura, dando espaço para que o jovem descubra sua própria voz, seus desejos e seus limites. Assim, a revoada edílica, embora desafiadora, é também uma oportunidade de fortalecer os laços, de promover o crescimento emocional e de preparar o terreno para uma relação mais madura e equilibrada no futuro.



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