Por que o Brasil, maior produtor de café do mundo, está mudando seus grãos?
À medida que as mudanças climáticas tornam mais difícil cultivar grãos de arábica, alguns agricultores estão investindo no robusta, mais amargo, mas que consegue tolerar temperaturas mais altas
Um trabalhador embala grãos de café durante a colheita em Jacutinga, em Minas Gerais — Foto: Victor Moriyama/Bloomberg Nos próximos anos, o café do Brasil pode começar a ter um sabor um pouco diferente. O país sul-americano é o maior produtor mundial de arábica, uma variedade suave de grão de café. Mas, à medida que as mudanças climáticas tornam mais difícil cultivar esses grãos, alguns agricultores estão investindo no robusta, que produz um grão mais amargo, mas consegue tolerar temperaturas mais altas e é mais resistente a doenças.
As tradicionais regiões cafeeiras do Brasil, que produzem majoritariamente arábica, vêm sendo atingidas por secas mais intensas e frequentes, além de temperaturas mais altas. O arábica ainda é a principal exportação de café do país, mas a produção de robusta agora cresce em um ritmo mais rápido: mais de 81% nos últimos 10 anos, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que acompanha a produção global de café.
Para o Brasil, o robusta representa uma oportunidade de continuar sendo o maior fornecedor de café do mundo no futuro, mesmo com o agravamento dos efeitos das mudanças climáticas, afirma Fernando Maximiliano, gerente de Inteligência de Mercado de Café da StoneX, uma empresa de serviços financeiros.
— Não foi necessariamente a demanda que resultou no crescimento da produção de robusta— acrescenta. — Na realidade, problemas climáticos e perdas no arábica foram os principais fatores que contribuíram para estimular o crescimento do robusta.
Nos últimos três anos, a produção de café arábica no Brasil cresceu a uma taxa de cerca de 2% a 2,5% ao ano, enquanto a produção de robusta aumentou aproximadamente 4,8% ao ano. Na temporada de cultivo deste ano, o robusta alcançou um aumento de quase 22%, uma colheita recorde, segundo a StoneX. Isso significa que a produção de robusta se destacou por sua capacidade de lidar melhor com condições climáticas mais adversas e também por sua rentabilidade, dizem analistas.
Em áreas mais quentes do Brasil onde o arábica não consegue crescer, os produtores de café estão encontrando maneiras de produzir robusta e mitigar o impacto das temperaturas mais altas. Plantar cafeeiros sob a sombra de árvores nativas e outras espécies é uma dessas técnicas.
— Dessa forma, ele continuará produtivo, ficará um pouco mais úmido, então não se degradará tão facilmente — afirma Jonatas Machado, diretor comercial da Café Apuí, produtora de café robusta em sistemas agroflorestais na região Amazônica.
Um grão diferente
O Vietnã é o maior produtor mundial de robusta, mas o Brasil está se aproximando — e pode ultrapassar o país do Sudeste Asiático graças a uma cadeia de suprimentos bem estruturada, de acordo com analistas do Rabobank, uma empresa de serviços financeiros.
O robusta tem uma concentração maior de cafeína e um sabor mais intenso do que o arábica. Mas as gerações mais jovens prestam menos atenção ao tipo de café que consomem ou ao seu nível de torra e tendem a preferir opções personalizadas, adicionando itens como leites, cremes e xaropes, que acabam mascarando o sabor dos grãos.
— Eles não se preocupam tanto com a origem, as notas sensoriais — disse Matthew Barry, gerente de insights globais para alimentos, culinária e refeições da consultoria de pesquisas de mercado Euromonitor International.
Se os preços do café continuarem subindo, os consumidores também podem se inclinar para o robusta, que custa menos.
Na Europa, a diferença de preços entre robusta e arábica provavelmente será ainda maior nos próximos anos. Uma nova lei exigirá que produtos importados sejam certificados para comprovar que não se originaram de áreas recentemente desmatadas ou degradadas, embora a data de implementação ainda seja incerta.
O café instantâneo, que é feito majoritariamente com a variedade robusta, está excluído dessas regras. Essa exceção pode aumentar a demanda por produtos à base de robusta, segundo o Rabobank.
A União Europeia é a maior consumidora de café instantâneo, respondendo por quase 50% da receita global, de acordo com a consultoria Grand View Research.
Embora o robusta tenda a ser mais barato que o arábica, seus preços vêm atingindo níveis recordes. Esses preços mais altos e o fato de que as cultivares são quase duas vezes mais produtivas do que as variedades de arábica convenceram um número crescente de produtores de café no Brasil a investir no plantio de robusta, disse Alexsandro Teixeira, pesquisador de café da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Os produtores de robusta também estão melhorando a qualidade de seus grãos. Isso tornou a variedade mais atraente para os consumidores e levou a um aumento nos preços, afirmou ele.




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