Pochettino sonha com surpresa dos EUA na Copa e pede fim da ‘arrogância’ americana no futebol: 'Não somos o número 1'
Técnico afirma que país ainda precisa construir cultura futebolística e diz que vencer um Mundial exige mais do que investimento e estrutura
Mauricio Pochettino, técnico dos Estados Unidos — Foto: TIMOTHY A. CLARY / AFP A um dia da estreia dos Estados Unidos na Copa do Mundo de 2026, o técnico Mauricio Pochettino fez uma reflexão sobre os desafios de comandar a seleção anfitriã e afirmou que o país ainda precisa encontrar equilíbrio entre ambição e realidade no futebol internacional.
Em entrevista ao jornal britânico The Guardian, o treinador argentino disse acreditar que os Estados Unidos podem surpreender no Mundial, mas ressaltou que a cultura esportiva local ainda está em processo de adaptação ao futebol, modalidade que, segundo ele, não ocupa o mesmo espaço que possui em países tradicionais do esporte.
— Há uma confusão que diz: 'Sou os Estados Unidos da América. Sou o número 1, o maior e melhor país do mundo'. No basquete, no hóquei ou no beisebol isso pode funcionar. No futebol, você compete contra mais de cem anos de história de países como Argentina, Brasil, Inglaterra e Espanha — afirmou.
Pochettino assumiu a seleção americana após deixar o comando do Chelsea e definiu o projeto como um dos maiores desafios de sua carreira. Segundo ele, a possibilidade de disputar uma Copa do Mundo em casa foi determinante para aceitar a proposta.
— Depois do Chelsea, pensamos que uma Copa do Mundo era algo que ainda faltava na nossa trajetória. E então surgiu a oportunidade dos Estados Unidos, que é uma seleção anfitriã. Era o momento de sair da zona de conforto — explicou.
O treinador destacou que encontrou um ambiente muito diferente daquele vivido na América do Sul ou na Europa. Para ele, o crescimento do futebol no país é evidente, mas ainda depende de uma transformação cultural mais profunda.
— O primeiro presente que uma criança recebe na Argentina é uma bola de futebol. Nos Estados Unidos, normalmente é um taco de beisebol, uma bola de basquete ou uma bola de futebol americano. Essa relação emocional com o futebol leva tempo para ser construída — afirmou.
Pochettino também elogiou o impacto provocado por Lionel Messi desde sua chegada ao Inter Miami. Segundo ele, a presença do campeão mundial ajudou a fortalecer a credibilidade da liga americana.
— A MLS está crescendo. Messi teve um impacto enorme. Um jogador da liga agora pode dizer que atua contra um campeão mundial e um dos maiores jogadores da história. Isso gera confiança e acelera o desenvolvimento do futebol no país — disse.
Desde que assumiu a equipe, o argentino afirma ter trabalhado para modificar alguns comportamentos que identificou no grupo. Segundo ele, muitos jogadores estavam acostumados a "apenas jogar", sem desenvolver plenamente a cultura competitiva presente em países tradicionais do futebol.
— Dissemos aos jogadores que jogar é uma coisa, competir é outra. Em algumas ligas americanas, o fracasso não tem consequências esportivas tão severas quanto no futebol mundial. Precisávamos mudar essa mentalidade — explicou.
O técnico também comentou a polêmica envolvendo o capitão Christian Pulisic, que ficou fora da Copa Ouro após divergências sobre planejamento físico. Sem citar diretamente o atacante, Pochettino afirmou que uma das prioridades foi construir um ambiente coletivo forte.
— Precisávamos que todos acreditassem no projeto. Se você está dentro, está dentro. O grupo precisa caminhar junto — disse Pochettino.
Sonho americano
Apesar das dificuldades, o treinador acredita que a Copa representa uma oportunidade única para consolidar o futebol no país e impulsionar uma nova geração de atletas.
Pochettino lembrou que cresceu em uma pequena cidade da província de Santa Fé assistindo à conquista da Argentina na Copa de 1978 e que jamais imaginou comandar uma seleção anfitriã em um Mundial. Hoje, porém, ele vê na competição a chance de transformar um sonho em realidade.
— Nunca tive um sonho americano. Primeiro tive um sonho argentino, depois um sonho espanhol e um sonho inglês. Mas o sonho americano é acreditar que tudo é possível. No futebol, você precisa acreditar no impossível. Porque o impossível, às vezes, acontece — afirmou.




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